Uiler Costa-Santos
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Textos

Coroas

Tarcísio Almeida · 2022 · Coroas

Texto da exposição Coroas, Museu de Arte da Bahia, 2022.

Ao falar sobre fotografia, Uiler Costa-Santos também nos fala sobre fazer morada — subindo no altos dos prédios para fazer suas primeiras imagens, andando de um lado para outro, refazendo sua família através das pessoas que o atravessam, reencontrando o ar que passa pelas rachaduras de objetos cotidianos, refazendo a magia de lugares já conhecidos no movimento. O perigo do movimento no movimento, como nos lembra Fred Moten, é "o de sabermos que somos afetados, que somos afectíveis. Há perigo também no próprio fato desse lembrete, mesmo que seja apenas uma amostra do que você não viu. A única maneira de atravessarmos essa cultura em serviço da destruição e reconstrução, esse contrato, esse contato, essa recusa de rendição, é nos estendermos às modalidades ante-autobiográficas da nossa história. Nossa constante fuga, até mesmo do tempo, e nosso consentimento para sermos inseparáveis, nos exigem viver em perigo".
Desse lugar, a espessura exorbitante, abstrata, formal e textual das imagens aqui expostas se apresenta também como um desafio. Há uma falha em nossa propriocepção, ou seja, na capacidade que o corpo tem de avaliar em que posição se encontra, a fim de manter o equilíbrio quando está parado ou ao realizar esforços. Essa dupla articulação realizada pelas imagens exige, por sua vez, dois acordos: 1) que o processo artístico responde ao habitar da experiência conectada a múltiplos tempos em que ele acontece e, por isso, a sua expressão estética é uma possibilidade de re/de/composição do que se passa nesse cruzamento; 2) que o corpo é o receptáculo onde esse processo se realiza. Nesse sentido, percebê-lo e escutá-lo diz respeito a dar formas para sua re/de/composição no mundo.
O uso da abstração como ferramenta política e compositiva para as imagens também ambiciona a construção de uma futuridade outra. Permite não só uma discussão situada das histórias estruturais com as quais a vida se realiza, como também a compreensão da nossa participação nelas, desejando nos reapropriar do debate a respeito da composição do mundo como uma decisão constante sobre o espaço e a matéria. Nesse sentido, a abstração, quando instruída criticamente contra as cenas já esperadas das paisagens, evoca o potencial das nossas vidas (individuais e coletivas) que desejam (re)inscrever, aqui e agora, suas forças e formas de liberdade nesta experiência de mundo.
O projeto Coroas, em andamento desde 2017, retoma os encontros de Uiler com estes momentos de liberdade manifestados durante as Sizígias — períodos de alinhamento entre corpos celestes. Nesses instantes, mar, solo e rios constroem novos relevos e geografias sensíveis, a partir de uma ecologia de saberes aparentemente conhecidos. Nas palavras de Uiler, "esses momentos são também um encontro. O tempo-espaço onde diversas formas de vida não-humanas reagem ao movimento sincrônico do cosmos para produzir seus fluxos, destinos, relevos e mapas". Assim, são nas Sizígias que a paisagem se transmuta, permitindo-nos perceber o cotidiano em sua constante capacidade de criação.
A partir de uma ação que envolve observação e escuta, as imagens apresentadas na mostra marcam alguns destes enigmas visuais que Costa-Santos vivencia na Baía de Todos-os-Santos. Ao retomar o potencial crítico e ficcional das imagens, o que esse jogo de abstração pela paisagem nos revela é a presença sincrônica de uma sofisticada tecnologia de pesca produzida por grupos tradicionais de trabalhadores do mar na região. Conhecidos como pesqueiros, a engenharia dessas áreas se faz através de um contato de corpo inteiro. Os círculos de madeira estruturados no diálogo com as cheias e vazantes do mar nos revelam a possibilidade de compreender a pesca não como um meio de exploração e extração, mas como uma forma de comunicação, contato e relação entre humanos e não humanos. Em seu limite radical, os pesqueiros fabulam outras saídas para os impasses colocados pelo presente quando tocamos nas formas (ancestrais e contemporâneas) de saber, habitar e existir.
TARCÍSIO ALMEIDA